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DMB
A Saga Lillywhite Completa Pt. 6 3/7/2007

Craig Knapp postou no forum do DMBML seu dilema, contando que tinha em mãos a cópia do que acreditava ser as Lillywhite Sessions e não sabia o que fazer com isso. Como era de se esperar, 99% disseram que ele devia liberar o disco para a comunidade de fãs. 

Craig tinha uma espécie de relação indireta com Lillywhite, e Lillywhite não era um homem difícil de entrar em contato, então Craig decidiu tentar perguntar diretamente ao próprio produtor.

Claro que isso não diminuiu a enxurrada de posts, emails e ligações (sim, ligações!) que Craig recebia suplicando pela liberação do disco. Mas ele deixou suas intenções bem claras no forum do DMBML, o que Steve Lillywhite responder é o que valerá.

O email extremamente cordial de Craig para Lillywhite foi enviado na sexta feira, 23 de março de 2001, poucos minutos depois da 1 da tarde:

"Olá Senhor Lillywhite,

Eu agradeço desde já pela atenção de ler este email. Eu sem querer me encontro em uma situação muito difícil.

Há cerca de uma semana, recebi um email de um fã da DMB que dizia ter em seu poder material inédito do novo disco da Dave Matthews Band. Ele perguntou se eu gostaria de uma cópia e respondi que sim, achando que seriam versões acústicas das músicas gravadas no disco Everyday. De qualquer maneira, recebi um pacote ontem, e percebi que na verdade se tratava das sessões que você e a DMB gravaram na Virginia.

Eu adorei o que ouvi, trabalho excelente. Sou abençoado por ter recebido este presente.

Minha pergunta a você é de caráter moral. Eu gostaria muito de partilhar estas músicas com a comunidade de fãs que fazem trocas de material da DMB. No entanto, acho que se a Dave Matthews Band e Steve Lillywhite não lançaram este material, o que me dá esse direito? Não quero desrespeitar a banda ou você. Então minha pergunta é:

Estarei desrespeitando a Dave Matthews Band e Steve Lillywhite ao liberar estas músicas?

Eu gostaria muito de uma resposta sua quando puder.

Muito obrigado pela sua atenção e tempo,

Craig Knapp"

Craig postou toda a comunicação que se seguiu com Lillywhite no forum, com Lillywhite pedindo uma confirmação de que o material em questão era mesmo as sessões, e depois Lillywhite dizendo a Craig que daria um retorno a ele depois que contacta-se o management da DMB (na época, Steve Lillywhite estava na Inglaterra). Os fãs esperavam ansiosos por uma resposta.

E ela chegou naquela mesma sexta feira. A resposta foi a seguinte:

"Eu consegui entrar em contato com algumas pessoas e nós chegamos à conclusão de que devido à leal base de fãs da DMB, sua honestidade e dedicação à banda por todos esses anos, liberar estas músicas seria, digamos, um prêmio para a comunidade de troca de material da DMB... mantenha contato e aproveite."

Lillywhite deu sua benção: Libere as sessões!

Craig rapidamente mandou uma cópia pra um amigo do forum do DMBML e fizeram uma versão em MP3 de 96 kb rapidamente. Estes foram soltos na rede e literalmente estouraram os foruns de todos os sites sobre DMB. Em mais alguns dias, versões em MP3 de 128 kb foram feitas, e na quinta da semana seguinte foi a vez dos arquivos em SHN caírem na rede. Um único site recebeu 70.000 visitas em um só dia. A história se espalhou pelo mundo todo, o disco perdido foi encontrado, e é ótimo!

Apenas um pequeno detalhe: Steve Lillywhite não abençoou a liberação. Pela sua honestidade, Craig postou toda a comunicação com Lillywhite enquanto ela ocorria, para manter os ávidos fãs informados de tudo, ele literalmente postava no forum cada email enviado e recebido. O que um fã fez foi, inteligentemente, trocar o já bem conhecido endereço de email de Steve Lillywhite que era SILLYWHITE por S1LLYWHITE, trocando o I por 1. Olhando rapidamente pode ser difícil de perceber a diferença. Craig não percebeu até quase julho de 2001. Deus Ex Machina era o máximo.

Outro pequeno detalhe: lembram daquela outra parte que dizia que só haviam 11 cópias do tal disco The Summer So Far? Bom, isso também não era exatamente verdade. Por mais que as pessoas que trabalharam no projeto se esforçaram muito para manter as coisas sob extremo controle, existiam no mínimo mais 4 cópias, e quando a cópia de Craig foi liberada, outros fãs(conhecidos na comunidade como Elite traders) que tinham cópias também, as soltaram na comunidade. Dependendo de onde você conseguiu sua cópia, você tem ou a cópia de Craig Knapp ou de algum dos outros traders. Em outras palavras, o disco teria sido vazado eventualmente.

E então havia também a outra demo. Lembra daquela que outra pessoa tinha mencionado no forum do Nancies.org? Aquela de que os "insiders" falavam em seus perturbadores posts nos foruns? Bom, essa também era real. Era uma das primeiras gravações feitas nas sessões. O seu conteúdo era o seguinte:

Dave Matthews Band
The Story So Far -- Demo #2
(The Lillywhite Sessions)
Producer: Steve Lillywhite
Recorded: Winter 2000 - Summer 2000

Track Name Time
_______________________________
d1t01 Bartender 06:37.94
d1t02 JTR 07:52.70
d1t03 Busted Stuff 03:56.92
d1t04 Sweet Up & Down 04:32.58
d1t05 Diggin' a Ditch 04:15.09
d1t06 Build You a House 03:58.60
d1t07 Captain 05:38.37
d1t08 untitled jam 05:48.18
d1t09 Grace is Gone 07:33.00
d1 totals 50:13:4

Você pode notar no entanto que quem quer que tenha feito o texto que cataloga essa demo colocou 'demo #2', apesar do fato de esta fita ter sido gravada no período de Janeiro e Fevereiro de 2000. Foi a segunda demo a vazar - primeiro nos trechos das músicas postadas aos poucos, e depois completamente. Este segundo vazamento aconteceu depois que alguns traders tiraram a música Build You a House de sua hibernação, depois de muitos pedidos. A faixa catalogada como "untitled jam" era The Prelude. JTR é a música mais completa desta demo, outras (especialmente Busted Stuff) mal tinham letras.

Então, na realidade, você tem esta "demo #2", e as Lillywhite Sessions, que foram gravadas com uma grande diferença de tempo entre elas. Pode-se até alegar que os 2 cds representam 3 sessões de gravações bem distintas.

Vamos tentar deixar as coisas claras: na verdade nunca se pretendeu que as Lillywhite Sessions fossem o disco a ser lançado. E nem todas as músicas gravadas estavam presentes na demo Summer So Far. Como já foi mencionado antes, #40 foi gravada mas não incluída na demo, nem The Prelude, dois rascunhos de músicas (só melodias sem letras), e nem mesmo a última chance de #36.

Mas ninguém ligava que não fosse um disco completo, nem que não estivesse devidamente mixado, todos amavam as Lillywhite Sessions. E todos gostavam muito mais do que de Everyday. Todas as publicações (de Entertainment Weekly a Rolling Stone) que analisavam e comparavam o disco Everyday às Lillywhite Sessions, as Sessions ganhavam sempre.

Agora os fãs tinham 2 coisas para esperar da turnê de 2001: a evolução das músicas do Everyday, e o retorno das amadas músicas das Lillywhite Sessions. Somente uma delas aconteceu.

Analisando agora, podemos ver que as músicas do Everyday nunca realmente mudaram. #36 voltou à sua transformação em Everyday, sendo usada como uma outro (frequentemente iniciada pelo coro de fãs), e a letra acaba rapidamente saindo da música com cada vez mais interpolações de músicas de outros artistas tomando seu lugar (como em 2006 com a música You Can't Rollerskate In A Buffalo Herd, de Roger Miller), mas essa é a única mudança substancial nas músicas do disco Everyday. What You Are ganhou a palavra "fuck" na letra, além de um novo verso("it's a puzzle..."), mas a música também ganhou uma infame intro que chega a ser maior que a própria música. Angel, para o desgosto de muitos fãs (ela é considerada pela grande maioria a pior música do Everyday), ganhou uma longa jam e um refrão com participação ao vivo das Lovely Ladies, que fez até o maior defensor do Everyday tremer. Em 2006 If I Had It All ganhou uma nova outro, mas era tarde demais. Para a vasta maioria dos fãs, uma música do Everyday no meio de um show é simplesmente o intervalo para ir ao banheiro.

Em 2001, os fãs levavam cartazes aos shows pedindo Big Eyed Fish. Essa música pode ser considerada a mais acabada das gravações das Lillywhite Sessions. Com suas estrofes fortes, melodia poderosa, e o caminho crescente ao clímax, é difícil negar sua grandeza. E não eram simplesmente alguns poucos fãs não, eram esforços bem organizados para que a música fosse tocada ao vivo. Fãs com os ouvidos bem atentos podiam perceber alguns teases nos primeiros shows de 2001. No show de 11 de maio de 2001, Dave chegou a tocar alguns acordes, junto com Boyd, e simplesmente falou no microfone "Story of a man". Ele podia muito bem ter gritado "Cerveja grátis!". Os fãs entenderam. No final do show, o coro de fãs pedindo Big eyed Fish era tão alto que o encore foi trocado, ao invés de I'll Back You Up, a banda resolveu tocar o cover do Pish, Waste, na tentativa de tocar uma música mais forte para que os gritos dos fãs fossem abafados. Aquele pequeno trecho de Dave dizendo "Story of a man" já estava na internet na mesma noite do show. Tópicos e mais tópicos nos foruns falavam bem de Big Eyed Fish. Alguns dias depois a música finalmente fez sua estréia ao vivo. Agora era oficial: as pessoas tinham o poder.

Os cartazes de Big Eyes Fish trouxeram então cartazes de Pig (e pequenos porcos de plástico), que trouxeram coros pedindo Two Step, que trouxeram coros pedindo Halloween, que trouxeram coros pedindo The Last Stop. Os fãs realmente acharam que podiam manipular a banda para fazer o que eles quisessem.

O legado das Lillywhite Sessions é eterno. Primeiro, a sede dos fãs por tudo da DMB nunca poderá ser saciada. A "segunda" demo das sessões caiu na rede, vazando a tão desejada Build You A House. A versão demo de Cigarette Lit, sobra das gravações do disco solo de Dave, Some Devil, também achou seu caminho até as mãos dos fãs. Dizem que a retrabalhada Hold Me Down foi guardada para um lançamento da banda, mas se isso acontecer, ela sempre será comparada à primeira versão gravada. Como Carter comentou sobre o problema das pessoas terem escutado as Lillywhite Sessions, "o problema é que o elemento surpresa deixa de existir". Quem sabe o que aparecerá no futuro, mas com certeza algo aparecerá.

E falando sobre o disco solo de Dave, ele foi consequência do Everyday. Everyday deu a Dave a segurança para se aprofundar, tentar mais nas suas composições. Pode-se dizer que algumas de suas melhores composições desta década vieram daquelas sessões (menos You Never Know), que alguns acham que teria sido melhor se tivessem sido guardadas para um disco da DMB. Boyd também lançou um disco solo. Stefan trabalhou em algumas faixas em diversos estúdios, com o potencial de lança-las(ainda não foram lançadas). Carter e Butch sempre estavam gravando coisas juntos, mas se pensava que eles também iriam pelo caminho do disco solo.

Outro golpe que se sentiu foi a turnê. Não haviam mais os shows em estádios do final dos anos 90 e começo de 2000. 3 shows no Giants Stadium viraram 2 shows no Madison Square Garden. O show gratuito no Central Park teve tanto público quanto o correspondente a 3 shows no Giants. Apesar do disco Everyday ter sido um sucesso financeiro, como dissemos antes, a turnê do disco não atraiu os fãs que costumavam ir aos shows, e afastou bastantes fãs do ultra cínico público universitário. Dizem que você escuta pro resto da vida as músicas que escutava na época universitária. Essas duas perdas foram suficientes para diminuir o tamanho dos lugares dos shows. Não entenda errado, a DMB ainda consegue lotar os shows, fazer turnês com ingressos esgotados, ainda são muito populares, mas não estão mais no auge de sua popularidade.

Até os discos não são mais recebidos sem bastante criticismo. Claro, os fãs sempre tiveram seus gostos e suas críticas mesmo quando saiu o aclamado Before These Crowded Streets, mas desde as Lillywhite Sessions pode-se dizer que a maioria dos fãs não tem gostado do trabalho em estúdio da banda. Mesmo o disco Busted Stuff nunca chegou a ter uma chance em comparação com as Lillywhites, apesar das letras mais trabalhadas e da melhora no som. O maior pecado de Busted Stuff pode ter sido a mudança na antes adorada Big Eyed Fish. Passou de melodia sombria para intro glorificada. Ninguém mais leva cartazes pedindo Big Eyed Fish nos shows. O disco Stand Up foi visto como uma mudança positiva (em comparação com Everyday), mas ainda assim foi extremamente criticado. As músicas do Stand Up evoluíram ao vivo de uma maneira que as músicas do Everyday nunca o fizeram, mas mesmo assim não parece bom o suficiente para os fãs.

Ah sim, os fãs. Nós, os fãs, ainda achamos que podemos controlar o show. Praticamente todo show da DMB tem algum coro organizado pedindo uma música específica. Claro que você pode achar em qualquer show desde 93 até 99 um fã gritando 'Watchtower!!!'. Mas nunca foi tão organizado como na turnê de 2006. Além disso, 2006 foi o ponto alto em reclamações sobre os setlists. Não importava que algumas das preferidas músicas antigas voltassem (incluindo algumas das Lillywhite Sessions), todo show que não tivesse Last Stop, Two Step e um solo de guitarra que parecesse ter vindo direto do corpo de Jimi Hendrix era considerado uma decepção. Isso até levou Stefan a fazer comentários na sua página do My Space.

A tempestade perfeita de eventos desta década levou a DMB, e seus fãs, até onde estão hoje. Se nós analisarmos com olhos de expert toda a saga do incidente Lillywhite Sessions, podemos chegar a algumas conclusões: Sim, engavetar o disco foi uma coisa boa - a banda estava em um impasse e provavelmente não teria sobrevivido a 2001. Não, Everyday não era a solução - ele alienou fãs e até mesmo a banda de certa forma. Sim, o vazamento foi bom para a comunidade e para a banda - as músicas tiveram uma vida nova depois de março de 2001. Não, foi ruim que os fãs percebessem o poder que tinham - afinal de contas a banda tem que fazer música e os fãs tem que ou aceitar ou desencanar, e não moldar a banda no que eles queiram.

Algo pode ser feito para mudar onde chegamos hoje? Não. O poder que os fãs perceberam não irá desaparecer. De gritos a coros, a reclamações, os fãs se sentem obrigados a conseguir o que querem. Essa á uma faca de dois gumes; esta interação com os fãs é talvez o por quê da banda estar onde está hoje, mas essa mentalidade de os pacientes que cuidam do sanatório é perigosa. A DMB não pode mudar - os pecados do passado são difíceis de esquecer. Costumava ser "This tick confusion grows..." (frase da letra de Rhyme & Reason, traduzida como "Essa densa confusão cresce..."), agora é "Don't hide away, like an ocean..." (frase da música Where Are You going, traduzida como "Não se esconda, como um oceano..."). Palavras volúveis e entorpecidas que confundem mesmo (da música The Space Between, "fickle fuddled words confuse me"). Até a progressão natural da banda é questionada (a exemplo do Stand Up). Que som os fãs querem? Que som a DMB fará?

A Dave Matthews Band continuará a amadurecer, musicalmente e em suas letras. Isso é algo muito bom. O som em 2006 estava fantástico, com a introdução de novos instrumentos, novos músicos e novas idéias. Em termos de letras, eles atualmente lembram mais a DMB pré 2001 do que pós 2001. Mas lá no fundo da mente dos fãs (e na superfície da mente de alguns) e provavelmente na mente da banda também, ainda persiste toda a epopéia Lillywhite Sessions-Everyday-Busted Stuff. Conseguirão todos voltar a se divertir? A banda chegará lá (provavelmente já chegou, a julgar por como se divertiram claramente nos palcos na turnê de 2006), mas ainda há fãs que estão perdidos nos sonhos de seus pais ("lost in the dreams of their fathers", uma apologia a música Dreams Of Our Fathers).

Artigo escrito por Jake Vigliotti, colunista e parte da equipe do site AntsMarching.Org. As opiniões e comentários expressados no artigo não representam necessariamente os do AntsMarching.Org ou da DMBrasil.



Créditos: Por Jake Vigliotii, Tradução: Nathalie Colas

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