Exclusiva com Dave Matthews 25/7/2008
Entrevista cedida a Mark Brown, para o Rocky Mountain News, publicada em 11 de julho de 2008
São tempos incertos para os fãs da Dave Matthews Band. O tecladista de longa data, Butch Taylor, recentemente deixou a banda. O saxofonista Leroi Moore sofreu um acidente grave em junho, o que forçou uma súbita e indefinida saída da banda (Jeff Coffin dos Flecktones está no seu lugar na turnê atual). As gravações do novo disco estão apenas parcialmente completas, sem data de lançamento à vista, 3 anos após o último disco, Stand Up.
Conversamos com Dave Matthews por telefone e o resultado foi uma longa entrevista onde ele fala sobre o estado atual da banda, sobre sua vida e o próximo disco, terminando com um "obrigado por me aturar" do simpático Matthews.
Como está Leroi?
Ele está um pouco abatido, mas vai ficar bem. Ele não quebrou nada que não se conserte sozinho.
Quão estranho é estar em turnê sem Leroi e Butch?
Butch, por decisão própria, decidiu que não queria estar aqui em turnê conosco, queria realizar outras coisas em sua vida. Nós respeitamos isso. É algo completamente diferente do que aconteceu com Leroi. Estávamos tocando, nos sentindo ótimos, trabalhando no próximo disco... estando em turnê, estávamos nos dando muito bem uns com os outros e como banda, melhor do que nunca. Este acidente foi um golpe forte, Leroi, Carter e eu fomos os primeiros a sentar e decidir "vamos ser esta banda". Não tê-lo ali, especialmente diante da possibilidade dele ficar bastante tempo afastado, é muito difícil.
Como está o novo disco?
Existem muitas músicas nas quais temos trabalhado nestes últimos anos... com isso, por diversas razões, não havíamos conseguido ter uma idéia muito clara de como seguirmos em frente e inovarmos musicalmente como banda. Neste último ano, por necessidade, nós encontramos mais foco e renovamos nossas amizades.
Como é o processo de gravação de vocês?
Você entra no estúdio, pega qualquer que seja o instrumento que está lá e começa. Então todos se juntam com a mesma intenção... fizemos isso por algumas semanas e criamos uma centena de idéias. Cada uma tinha um limite. Você podia tocá-la por 10 minutos e então parar. Não se pode simplesmente improvisar e tentar eternamente. Estamos buscando sentimentos muito honestos e descobertas maravilhosas.
E o produtor Rob Cavallo (Green Day, My Chemical Romance) escolheu 15 faixas dentre todas criadas e passou a vocês para que trabalhassem nessas?
Olhamos estas 15 músicas e dissemos "ok, essa é uma lição de casa bem estruturada, bem coesa. Um trabalho bem claro". Então começamos com uma e trabalhamos nela, algumas mudanças, um refrão, bridges, o que fosse. Todos juntos, sentados em círculo, conversando sobre cada passo. Com isso criamos arranjos para cada uma das 15 músicas, e a partir daí trabalhávamos na próxima e aí gravávamos... pode parecer que fizemos um pouco o caminho inverso do que se faz, talvez um caminho mais difícil, mas tem sido muito interessante. O que eu gosto é que deixa o processo muito enérgico, traz uma musicalidade muito honesta às músicas, também dá a impressão de uma apresentação ao vivo, todos nós sentados tocando as músicas juntos.
Com filhos, papéis em diferentes filmes e a música, como você consegue manter o foco?
Podemos dizer que estou um pouco desfocado. Acho que isso é um pouco frustrante para minha mulher. Mas também estou muito focado em cuidar da minha família. Acho que falo por todos na banda: já fazemos isso há bastante tempo. Não é como se em algum momento tivemos uma vida na qual tinhamos um emprego e voltávamos pra casa todo dia depois do trabalho e depois nos tornamos uma banda e começamos a viajar. Conhecemos nossas mulheres e formamos nossas famílias quando já éramos uma banda e já estávamos constantemente em turnê. Foi assim que nos tornamos o que somos hoje. Seja fácil, seja difícil ou o que quer que seja, esta é minha vida.
Você apoiou o candidato à presidência dos Estados Unidos, Barack Obama. Você acha que haverá um momento no qual a política americana voltará a ter um tom mais civilizado?
Neste país somos inundados de informações porque somos muito suscetíveis à mídia. Você não consegue desligar, a presença da mídia é muito forte no nosso país. Acho que os Estados Unidos precisam se afastar um pouco desta cultura do medo de todos os lados. Estamos passando por uma fase muito paranóica e defensiva, seja sobre nossa comida ou pessoas que são diferentes de nós ou como somos vistos pelos outros ou como vemos a nós mesmos... existe uma obsessão para que se categorize e rotule tudo. Não deviamos ser tão preocupados com isso, pensando obsessivamente o quanto estamos a salvo de tudo e de todos. Isso se torna uma doença. De certa forma, esta cultura pode fazer com que seu pior pesadelo se torne realidade se ficar obcecado com isso o tempo todo.
Você faz shows beneficentes para diferentes causas o tempo todo, desde o Farm Aid todo ano até coisas de última hora como o evento para as vítimas do Katrina no Red Rocks. Como você decide como vai gastar seu tempo?
Eu sei que meu manager provavelmente diria que é um processo mais complicado, mas a maneira como penso é a seguinte: escolho o que se torna mais presente, mais necessário ou mais urgente naquele momento. Para mim, o Farm Aid foi uma combinação de várias coisas. Minha admiração pelo trabalho de Willie Nelson e Neil Young, especialmente Willie a princípio, e depois Neil e John Mellencamp. Uma combinação dessa admiração pelo que eles estão fazendo e meu amor pelo campo, pelos fazendeiros e a preocupação com a situação atual deles. Eles são um grupo demográfico que não tem voz, não tem poder. Foi isso que me atraiu para a organização. Fico feliz de ainda fazer parte disso. Às vezes acho que precisamos encontrar uma maneira de renovar um pouco o evento e a organização, mas acima de tudo acho que é um projeto e um trabalho muito importante. Fora isso, existem coisas como o furacão Katrina, em uma situação como aquela todos tem a obrigação de fazer o máximo que podem, especialmente perante tamanha incompetência da parte dos líderes da nossa nação naquele momento. Nós tivemos que intervir e fazer todo possível.
Créditos: Tradução - Nathalie Colas / Revisão - Rodrigo Simas
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