DMB no Rio: A crônica de uma celebração 19/10/2008
Texto originalmente escrito para a International Magazine -----------------------------------------------------------------
Por volta das duas da manhã do dia primeiro de outubro de 2008, eu me sentava em frente a este mesmo computador e escrevendo a seguinte mensagem: “Pura magia, amigo. Só alegria! É o tipo de sentimento que não dá pra descrever... To extasiado...”. Eu estava voltando de um show que entrou para história da vida de muita gente. Pessoas que tem o direito de bater no peito nos próximos anos e se gabarem para quem quiser ouvir, “eu estava lá!”. Ou dizer o inverso e dar umas batidas com a (própria) cabeça na parede.
Vamos voltar um pouco no tempo. Desde o dia 25/09 a Dave Matthews Band (DMB) estava em solo brasileiro para realizar 3 shows, Manaus, São Paulo (esses dois como atração do festival “About Us”) e Rio de Janeiro (única atração). Os dois primeiros receberam boas críticas, tiveram set lists executados em quase duas horas e meia, coerentes com as últimas apresentações, a banda feliz, tocando em alto nível e o público encantado com o que viu e ouviu. A DMB inclusive vinha recebendo elogios pela imensa simpatia e disponibilidade em relação aos fãs.
Essa é a terceira vinda da banda ao país, as outras duas foram no Free Jazz (1998) e no Rock In Rio (2001). E de uma forma evidente o clima no Rio de Janeiro era de alta ansiedade e expectativa. Pessoas, mesmo com os ingressos esgotados há semanas, decidiam dar um jeito de ir, outros tentavam descobrir o hotel onde o grupo se hospedaria, e havia os que começavam a fazer as malas e partir, principalmente de Minas Gerais e do Sul, para a cidade maravilhosa. Nesse cenário eles (DMB) chegaram ao Rio, na véspera da apresentação. Atenderam fãs na porta do hotel por diversas vezes e em situações inusitadas como o vocalista voltando andando para o hotel às 2:30am devidamente “calibrado” por caipirinhas, e coisas do gênero, que encarou na orla. Ainda assim atendeu um grupo que estava fechando a conta no quiosque em frente ao hotel e tirou fotos bem descontraídas. Membros da banda assistiram e adoraram o “Trio Madeira Brasil” que se apresentou na Lapa e como todo bom turista, foram ao Corcovado na manhã seguinte, dia do show, mas o tempo fechado não colaborou muito.
Cornbread - 30/09/2008 (Vivo Rio, Rio de Janeiro)
Acompanhei os momentos que antecederam a saída do grupo para o Vivo Rio. O astral era ótimo, todos muito tranqüilos, à vontade e em sintonia total com os fãs. A promessa de uma grande noite era inevitável.
O SHOW
Pontualmente às 21:30 a banda entrou no palco, a casa estava completamente lotada, e aos primeiros acordes de “Bartender” iniciou-se um delírio que para muitos ainda não passou por completo. No palco, simples e básico, uma formação arrebatadora. No lugar deixado por Leroi Moore (falecido em decorrência de um acidente de triciclo em meados de agosto) o “flecktone” Jeff Coffin assumiu com extrema competência a função, a seu lado o “pequeno” Rashawn Ross destruiu no trompete. Stefan Lessard comandava os grooves no baixo, na bateria Carter Beauford (avassalador como sempre), no violino Boyd Tinsley (que dedilhou o instrumento em Two Step como se fosse um cavaquinho), na guitarra o excepcional Tim Reynolds fazendo a diferença. Dave Matthews na voz, violão e nas famosas dancinhas inusitadas. As jams na medida, emocionantes, deram o tom da noite. A animação do público era contagiante, e por diversas vezes a voz de Dave era coberta pelo coro da massa e ele logo emendou “I wanted to speak portuguese to blow your minds (queria falar português para aluciná-los)”.
Creio que, para os presentes, todos os momentos ficaram marcados, mas eu gostaria de ressaltar alguns em especial. Como canção “Stay or Leave” (do repertório solo do vocalista) dedicada ao falecido companheiro de banda que tem versos saudosos como “Stay or leave/ I want you not to go/ But you did” e contou com um solo sensacional de Jeff Coffin, ou ainda o maravilhoso duelo de pife e flauta entre o convidado Carlos Malta e, novamente, Jeff na longa introdução, iniciada por Carter e suas baquetas mágicas, de “Say Goodbye” (que não era tocada ao vivo há mais de um ano). Algumas pessoas flutuavam como plumas ao meu redor durante esse “ato”. Ela veio seguida de “Cornbread”, música que pode aparecer no próximo álbum previsto para 2009, que tem uma pegada forte, cheia de swing, daquelas que não permitem que se
fique parado. “Crush”, meu deus, todo mundo em uma só voz e as jams correndo soltas. Se estivesse ali no meio, o Roberto Carlos certamente iria escrever “Emoções 2”. Na seqüência tivemos Mr. Beauford trabalhando pesado em “So Much To Say” que fez uma ponte trovejante com a introdução de “Too Much” para chegar em “Ants Marching”, abençoada com um solo de violino incansavelmente aplaudido. O mundo já podia acabar que os 4500 presentes certamente não se importariam. Mas tinha mais, muito mais. “Jimi Thing” veio pra festa com todo seu virtuosismo, solos variados, delirantes e Dave “perdendo a linha”, ao seu estilo, no vocal.
#41 merece um parágrafo a parte, foi o auge de uma celebração que só teve pontos altos. A música, por si só, é um hino de beleza única. E havia uma homenagem, arquitetada pela DMBrasil (que, diga-se de passagem, teve uma importância fundamental nessa vinda da banda ao Brasil, sem o trabalho desenvolvido, há anos, pelo Rodrigo Simas, eu não sei se esse texto estaria sendo escrito hoje), ao Leroi Moore que consistia em receber a banda com bolas brancas na volta para o bis, mas algo mais forte fez com que todos intuíssem ao mesmo tempo que a melhor hora seria no meio de #41. De repente o Vivo Rio virou um mar de bolas brancas, com direito à cascata que “jorrava” do piso superior, Jeff solava e nos presenteava com um trecho de “Sojourn Of Arjuna” do Bela Fleck & The Flecktones a plenos pulmões, a banda inteira perplexa com o que acontecia diante de seus olhos, o nome de Leroi ecoava forte, alguns instrumentos pararam brevemente, Rashawn foi às lágrimas e saiu do palco para enxugá-las, a emoção tomou conta. Dave, que já havia levantado e beijado uma bandeira do Brasil ficou sem reação, incrédulo, aplaudiu, agradeceu, apontou para o céu e voltou à música. Em shows, nunca presenciei nada parecido.
Esse set se encerrou com “Don`t Drink The Water”, e mais uma aula de bateria do endiabrado Carter. Após uma breve pausa, a volta para o bis incendiário e apoteótico com “Burning Down the House”, cover do grupo Talking Heads, e “Two Step” em versão estendida e mais solos absurdos do Tim Reynolds, Boyd e Carter. Após três horas e meia de pura magia, as portas se abriram para o velho mundo lá fora. Mas a forma de vê-lo certamente já não poderia ser a mesma.
Antes do show, Dave disse que essa apresentação seria gravada podendo vir a se tornar comercializado. Creio que um “Live Trax” é o mais provável. O fato é que depois do que aconteceu ali, não há como dispensar esse material, é um registro histórico.
Quase no fim, quando voltaram para o bis, o vocalista dirigiu-se ao público e afirmou “Leroi gostaria de estar aqui”. Eu humildemente, com todo respeito, pergunto “E quem não gostaria?”.