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DMB
GQ entrevista Dave Matthews 5/7/2009

Quando comentei com amigos e outros editores aqui na GQ que ia entrevistar Dave Matthews, eles gargalharam e esnobaram. Dois caras começaram a imitar forçadamente a sua voz rouca. Um outro começou a dançar fazendo uma imitação exagerada da maneira bizarra e espásmica que Matthews tem de dançar no palco, fazendo sua própria versão de Charleston. Um amigo chamou a música da banda de Matthews de progressivo leve. Um colega de trabalho simplesmente baixou a cabeça na mesa. Tá bom, caras! Eu já entendi. Matthews não é descolado.

Mas sabem quem não liga pra ser descolado? Os 31 milhões de americanos (e mais por vir) que compraram os discos da Dave Matthews Band. Meus muitos amigos do colégio que experimentaram seus primeiros beijos e amassos no gramado do Lakewood Amphitheater em Atlanta enquanto a DMB tocava Tripping Billies no palco. E pessoas de cidades por todo o Estados Unidos que herdaram de seus irmãos mais velhos discos de bandas como Allman Brothers, Genesis e Steely Dan ao invés de discos de bandas que te davam status de descolado como Fugazi, The Clash e Sex Pistols.



Nesta terça, a Dave Matthews Band lançou seu sétimo disco de estúdio, Big Whiskey And The GrooGrux King (parte do nome sendo uma dedicatória ao saxofonista LeRoi Moore, que faleceu em agosto do ano passado em consequência de ferimentos em um acidente de quadriciclo motorizado). É o melhor disco deles, e um retorno à boa forma da banda. Seus últimos 3 discos de estúdio foram dolorosamente trabalhosos: Dave parecia estar com bloqueio criativo, e produtores famosos foram chamados para extrair hits dele, com sucesso parcial. Em Big Whiskey, no entanto, a banda volta à sua forma estranha, bombástica e complexa de ser. O disco é enérgico, forte e simplesmente denso. Além disso, em termos de letra, Matthews volta a soar como antes, sendo bobo e existencial: ele volta a cantar sobre sexo e macacos e transar feito macacos. A idéia principal é carpe diem, pois amanhã nós macacos nos tornaremos comida de vermes.

Todo mundo gostará de Big Whiskey? Não. Você gostará? Talvez. Você vai gostar se conseguir esquecer as conotações que acompanham a DMB e se perguntar o que o "progressivo leve" tem a oferecer. Há 2 anos atrás, tornou-se legal deixar de lado todas as pretensões punk rock e admitir que a música Since You Been Gone da Kelly Clarkson ou outras bem trabalhadas músicas pop tem seu valor. Ouça as músicas Why I Am, Dive In e You and Me com a mesma mente aberta e você se pegará fazendo a sua própria versão espásmica de Charleston na sala da sua casa.

A seguir está uma conversa franca com Dave sobre o retorno da DMB à sua forma, o que há de errado com as novas bandas do momento, e como é ser o rock star menos descolado do planeta.

GQ: Você parece empolgado com o disco novo.
Dave Matthews: Sim, de uma maneira engraçada acho que tudo estava certo pra nós. Há uma química nessa banda, e por quaisquer razões, depois de estarmos juntos por uma década, o tempo que passávamos juntos ficou um pouco saturado. Esse disco é a primeira vez que chegamos perto da parte central do alvo. Eu posso colocá-lo na mesa com orgulho.



GQ: O que você acha que estava impedindo vocês antes?

DM: Durante anos, LeRoi dizia "Nós devíamos ser uma ótima banda em estúdio! Não há motivo pra não sermos capazes de fazer discos com a mesma reputação dos nossos shows". Ele dizia "Você tem que liderar essa banda!". Passamos por um período difícil e não estávamos nos comunicando da maneira que devíamos e eu pensava "como?". Mas aí tudo chegou num ápice. Percebemos que simplesmente tinhamos que deixar as coisas pequenas fora disso.

GQ: Você fala sobre a banda compor músicas junta. Você se considera um compositor?
DM:
No passado isso foi uma área confusa. Eu amo escrever músicas - estar sentado em um quarto compondo ou estar sentado em um mesa escrevendo letras. Mas há tantas maneiras diferentes de se atingir objetivos, e no (caso do Big Whiskey) o mais importante era a banda se reunir e ver que tipo de música sincera podíamos criar. Nos juntamos e fizemos improvisações espontâneas - umas pequenas jams que aconteciam. Quer dizer, nós parávamos depois de 10 ou 15 minutos. Não era um festival de escalas e virtuose. Não é o meu tipo de coisa. Enfim, tinhamos centenas dessas jams, e trabalhamos nelas até chegarmos em 20 favoritas, e daí construímos estruturas de músicas em cima delas. Eu pegava essas estruturas e trabalhava elas e escrevia melodias e letras em cima delas. Quando tinhamos as primeiras 4 músicas, Roi disse "esse vai ser o melhor disco que já fizemos". Nunca vou esquecer que ele disse isso. Ele disse "em termos de letra, você está confiante. Está escrevendo letras como costumava escrever antes".

GQ: Algumas das músicas do disco novo são super coerentes. Mas uma música como Squirm é obtusa. Eu me pergunto se às vezes você se apóia na banda e não necessariamente faz o seu melhor em questão de letras.
DM: Não, eu trabalhei duro nessa música. Talvez as pessoas não entendam nada, mas pra mim a idéia é clara. Se você não entender, talvez esteja prestando atenção demais. A música é sobre o conflito entre nossas opiniões exacerbadas de nós mesmos e o fato de que somos só macacos. O que somos mesmo! Acho que há evidência suficiente para que até uma mente um pouco razoável possa concluir que nós somos tão significativos quanto uma folha de grama ou um mosquito - e pensar diferente disso é muita tolice. Então pra mim a idéia é que assumamos isso e gritemos aquilo que está mais fundo dentro de nós. Acho que era isso que estava disparando do meu coração.

CG: Hoje de manhã, a caminho do trabalho, eu estava lendo sobre uma banda que tem uma tonelada de hype e atenção da mídia nesse momento. Mas mais gente vai assistir o seu show hoje do que vai comprar o disco dessa banda no mês que vem. Qual a sua reação para as besteiras que vocês tem que aguentar sobre não serem descolados?
DM: Nós temos aguentado isso há muito tempo. Eu realmente acho que esse novo disco é um disco excepcional, então estou mais confiante agora do que posso ter estado em outros momentos. Nós certamente não nos encaixamos no papel. Não temos os últimos cortes de cabelo da moda, e não temos a atitude certa - ou pelo menos não a demonstramos num tapete vermelho. Às vezes a banda do momento é realmente legal, mas bandas que tem um estilo muito moderno e que expressam um momento novo acabam se tornando ovelhas para sacrifício. É "olha essa coisa super legal que achamos! Vamos torná-la gigante". E isso acontece o que? Em 90% dos casos?

GQ: Provavelmente 99,9%
DM: Certo. Algumas dessas bandas de repente pensam "meu Deus! Nós somos fodas!". Porque eles ouvem isso com tanta frequência. E aí vão se enfiar nos seus orifícios fundamentais. Eles são um sucesso e são gigantes e populares - e isso é merecido na maioria dos casos. Mas o sucesso é curto. Eu veja essas bandinhas indies sendo empurradas pras pessoas e na maioria das vezes penso "isso é legal". Mas uma parte de mim tem vontade de ser uma vozinha que chega pra esses jovens altamente influenciáveis que estão dando seus corações no palco e dizer "tenham muito cuidado com essas pessoas lindas, sorridentes e adoráveis que estão ao seu redor te dizendo que você é a melhor coisa que já aconteceu na música nos últimos 30 anos, porque essas mesmas pessoas vão te largar pra ser comido por baratas. Em uma semana e meia".



GQ: O outro lado da moeda é que vocês tiveram espaço pra erros. Vocês tiveram fãs que estavam dispostos a aguentar um período no qual vocês não estavam necessariamente dando o seu melhor.
DM: Bom, nossos fãs nos dizem o que eles pensam. Nossos fãs não falam "nossa, esse é um ótimo disco!". Quando as pessoas não gostam de um disco que fizemos, eles usam todos os métodos possíveis para nos comunicar isso.
Eu tenho um ego frágil, provavelmente, e gosto que as pessoas gostem de mim. Gosto das pessoas me aplaudindo como se eu fosse um macaquinho bom. Então continuo fazendo meus truques. Eu tenho a oportunidade de me expressar de uma maneira que a maioria das pessoas não tem. E não ligo muito pra críticos - quer dizer, não ligo para o que eles dizem - porque realmente não importa. E o que eu faço não importa! Mas não vou parar de fazer porque não me sinto validado depois de ouvir alguém dizer: "olha pro cabelo dele, ou a falta de cabelo".

GQ: É estranho que essa banda gigantesca leve o seu nome? Faz com que você pareça tão sociável.
DM:
Acho divertido o fato das pessoas acharem que sou um cara bonzinho e normal.

GQ: Porque isso te permite ser extremamente fora do comum?
DM: Sim. A vida que tenho está muito longe de ser comum, e nunca na minha vida, até eu estar nessa posição, fui acusado de ser normal. Quer dizer, claro que eu sou tão normal quanto não sou. Mas acho que as pessoas se confundem porque eu sou uma pessoa gentil. Trato os outros com respeito quando os encontro, independente se é porque seja um jornalista importante ou alguém que quer um autógrafo. Talvez as pessoas confundam isso com ser normal, mas eu não acho que é normal.

GQ: Na sua música você soa como o campeão dos azarões - alguém que sempre esteve do lado daqueles que não tem. Mas a banda te deu uma fortuna enorme.
DM: Eu percebo que pessoas pensadoras que estão tentando entender o sentido de tudo - e quero dizer realmente tentar entender o sentido de tudo, não simplesmente ficar na ponta do iceberg - são muito mais interessantes do que pessoas que acham que estão no círculo dos vencedores. Eu odeio o círculo dos vencedores. Os prêmios e cerimônias onde todos os músicos medíocres como eu se juntam pra dizer o quanto somos bacanas por sermos bacanas, eu odeio. É como um filme sessão da tarde ruim. A pessoa que está tentando manter seus filhos na escola e querendo entender como o mundo funciona é muito mais interessante do que qual o café que algum imbecil está bebendo na revista People. Talvez eu tenha sorte por evitar esse mundo. E talvez isso contribua enormemente pro fato de eu não ser descolado.

GQ: Grande parte dessas besteiras da indústria da música é inevitável para que as bandas tenham sucesso, mesmo que não queiram. Mas vocês basicamente driblaram a indústria da música completamente.
DM: Eu lembro que mandamos fitas nossas - na época em que ainda existiam fitas - de sul a sudeste dos Estados Unidos. Queríamos ver se nos deixariam tocar. Depois da segunda rejeição, dissemos "que se danem". As gravadoras só começaram a vir atrás de nós quando nós paramos de olhar pra elas e passamos a olhar para o público. Quando rodávamos e tocávamos para as pessoas. É engraçado termos nos tornado uma das bandas mais bem sucedidas da América e ainda assim nos sentirmos meio que... não incluídos.

Entrevista cedida a Will Welch, em 05 de junho de 2009.



Créditos: Tradução: Nathalie Colas

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