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DMB
Stefan Lessard na Ultimate Guitar 18/8/2009

Para o baixista da Dave Matthews Band, Stefan Lessard, ver seu último disco atingir o merecido primeiro lugar da parada da Billboard (com mais de 400.000 cópias vendidas) é no mínimo um sentimento contraditório. Seu companheiro de banda, o saxofonista LeRoi Moore, faleceu em agosto do ano passado em consequência de ferimentos em um acidente com quadriciclo motorizado, mas sua marca criativa está extremamente presente em mais de 70% do disco. Lessard disse que o legado de seu amigo continuará vivo, e que a recente expansão da sessão de metais na banda é resultado direto dessa influência.

Big Whiskey And The GrooGrux é mais um passo na evolução da DMB, grupo do qual Lessard é membro desde a adolescência. Ao se juntar à banda aos 16 anos, o baixista teve que fazer um rápido ajuste à essa nova vida: abandonar os estudos. É uma decisão que, dado o sucesso milionário da banda, pareceria ser o caminho certo. Mas como Lessard explicou à jornalista da Ultimate-Guitar, Amy Kelly, ele não virou totalmente as costas para sua educação.

UltimateGuitar: Aconteceu tanta coisa desde o lançamento do disco Stand Up em 2005, e a comunidade da música ficou tão triste com a perda de LeRoi Moore. A maior parte do novo disco Big Whiskey já estava escrita quando isso aconteceu?
Stefan Lessard: Grande parte das músicas do disco, no mínimo 70%, foi escrita em Seattle e em Charlottesville há mais de um ano e meio atrás. LeRoi esteve presente em todo esse processo. É nisso que está a alma deste trabalho. Fora isso, Dave escreveu letras em cima de 4 músicas. Isso quer dizer que havia estruturas completas para 4 das músicas quando começamos a turnê de verão do ano passado. Então, depois de tudo que aconteceu com a morte de LeRoi, algumas músicas surgiram daquelas 4 originais. Em termos de letras, claro, muita coisa foi escrita depois que LeRoi faleceu. Mas ele estava presente quando a maior parte do disco foi composta.



UG: Parece que a lista de músicos que se juntou à DMB neste novo disco foi longa, com o guitarrista Tim Reynolds e o trompetista Rashawn Ross participando do processo criativo. Essas novas perspectivas fizeram a banda tomar uma nova direção criativa?
SL:
A nova direção, que provavelmente não se ouvia na antes nossa música em outros discos, é o fato de neste termos uma sessão de metais. LeRoi, durantes nossos shows, trouxe Rashawn para o palco e começou a criar uma sessão de metais dentro da música da Dave Matthews Band. O que sempre foi um aspecto único da nossa música foi termos sempre partes de violino e metais. E agora de repente havia também um trompete e um som natural de sessão de metais estava acontecendo. Todos os solos de metais que você ouve, são todos LeRoi. Mas depois a sessão de metais, isso foi uma extensão da idéia do LeRoi. Era para onde ele estava liderando a banda e o som que estávamos tentando fazer. Foi excitante ter, por exemplo, a música Shake Me Like A Monkey. É um exemplo perfeito de uma música que soa como DMB, mas com uma sessão de metais. LeRoi e Rashawn, nós costumávamos chamá-los de "horny horns" (metais excitados) porque eles tocavam absurdamente na total improvisação. LeRoi tinha um ditado "é um por um". Se você tinha uma idéia e ela nunca chegasse a dar certo, então você podia dizer "bom, isso foi um por um". Ter o Tim no disco foi, para mim, quase como ir para casa de certa maneira. Tim tocou nos nossos primeiros 3 discos. Foi empolgante ter ele ali novamente. E tudo funcionou muito bem.

UG: É possível que o Tim volte para a banda indefinidamente?
SL:
No momento, temos muita sorte de tê-lo conosco e dele ter tempo neste verão. Ele tem sua própria banda. Faz um trabalho próprio. Por exemplo, em abril deste ano fizemos um show, acho que foi em Albuquerque. Acho que depois do nosso show ele tocou em um clube com sua banda, o TR3. Sou extremamente grato por ele ter tempo para excursionar conosco esse ano. Por mim, adoraria se ele tivesse esse tempo para nós todos os anos.

UG: Queria voltar um pouco o relógio para quando você entrou na banda, aos 16 anos. Obviamente eles viram algo muito especial na sua habilidade de tocar. Como foi que tudo aconteceu?
SL:
Eu tive um ótimo professor de música quando estava no colegial. Eu já tinha aulas com ele há 2 anos, e tinhamos uma família muito musical. Quanto a levar música a sério, eu só comecei realmente quando já tinha 14 anos. Foi quando comecei a fazer aulas de World Music, e meu pai trabalhava para uma empresa que vendia instrumentos. Então um dia ele trouxe um baixo para casa, e perguntei se podia levá-lo na aula. Meu pai me mostrou algumas escalas básicas e comecei a brincar em cima delas. O professor disse "ei, está muito bom. Você já pensou em levar o baixo a sério?". Eu disse "não, mas vou começar a pensar". Um ano depois, eu já estava tocando baixo acústico e tinha um professor de baixo acústico. Gostava muito de jazz e queria começar a tocar música clássica. Fui aceito em uma orquestra jovem como terceiro baixista. Eu estava progredindo bem rápido e ainda era bem jovem. Meu professor de música, que também é trompetista e conhecia vários músicos na cidade, sabia que Dave estava juntando alguns músicos para formar uma banda. Carter e LeRoi tinham um ensaio no dia que meu professor sugeriu que testassem um estudante como baixista. Acho que ele disse que eu tinha um "bom bolso". Comecei a tocar com eles no segundo ensaio, e foi isso. Eles viram que eu era um estudante sério, e naquela época também não haviam muitos outros baixistas na cidade. Eu tinha o tempo para estudar e ensaiar e tinha a empolgação, então foi uma combinação perfeita.

UG: Sei que você teve que decidir se continuava ou não os estudos. Foi uma escolha difícil para você?
SL: Foi difícil. Eu queria muito ir para Berklee ou Julliard (famosas faculdades de música nos Estados Unidos). Já tinha decidido que estudaria em uma excelente escola de música. Queria seguir os passos dos baixistas e músicos que eram meus ídolos na época. O que descobri foi que poderia ir para a universidade 1 ano adiantado. Quando tinha 17, fui aceito na Virginia Commonwealth University com uma bolsa para música. Enquanto estudei lá, dirigia quase todo dia de Richmond, também na Virginia, até Charlottesville, para os ensaios da DMB. Isso quer dizer que eu voltava de Charlottesville às 4 da manhã depois de um ensaio, e acordava às 6:30 para estar na aula às 7. Claro, na época era divertido. Eu pensava "isso é ótimo! Eu consigo aguentar". O diretor do departamento de jazz veio falar comigo e perguntou se eu poderia restringir minhas atividades extra curriculares ao campus da universidade. Eles queriam que eu colocasse meu tempo e esforço em bandas da própria faculdade e essas coisas. Quase ao mesmo tempo que ele me pediu isso, a banda conseguiu o primeiro trabalho com pagamento alto, que eram US$ 1000 dólares em um clube do Colorado. Então tive que decidir entre viajar para o Colorado com a banda e desistir da faculdade e da bolsa de estudos, ou continuar na faculdade e desistir da banda. Eu estava empolgado com o fato de estar numa banda que era popular na minha cidade. Não podia abrir mão disso. Então escolhi a banda ao invés da faculdade.



UG: Dada a monstruosa popularidade da banda, parece que você tomou a decisão certa.
SL: Eu acho que sim. A partir dali, fui autodidata. Não tive mais professores. Estava na estrada. Estava aprendendo as músicas. Minhas habilidades se tornaram o que fosse que a música precisasse. Foi para onde meu nível de habilidade foi. Sempre quis fazer faculdade, desde que estava no colegial. Nunca perdi essa vontade. Agora que percebo que há um nível de aprendizado que estar na estrada me ensinou que faculdade nenhuma não tem. No momento estou numa grande busca por conhecimento. Peguei alguns dos meus antigos livros de estudo e vocacionais. Estou me colocando de volta na escola, pelo menos na minha cabeça. Sempre existem lugares aonde ir como músico.

UG: Você diria que já tem uma noção boa de teoria musical?
SL:
Tenho uma noção básica, para ser sincero. Muitas vezes, quando estávamos compondo músicas, Dave tocava um acorde e olhava pra mim. Ele dizia "que acorde é esse?". Agora ele sabe quais acordes está tocando. Carter e LeRoi tinham anos de experiência musical, e eu ainda estava no nível de colegial. Uma coisa que percebi foi que estive viajando numa van quando tinha 17, 18, 19 anos. Esses são os anos nos quais normalmente você se desenvolve. Você se tranca no seu quarto e estuda, ou vai a um ensaio com seus amigos. Então eu nunca consegui criar o estilo que realmente queria. De certa forma que tive que sacrificar isso. Não podia sentar no fundo da van com mais 3 pessoas e ficar tocando baixo sem parar. Eu escutava muita coisa e aprendi muito enquanto tocávamos. Aprendi muito na base do erro e acerto. Meu conhecimento chegou a um ponto nesse momento onde estou começando a ver a luz com relação ao que a teoria signfica para a música. Victor Wooten é uma inspiração incrível para mim, tanto na sua habilidade técnica quanto na maneira como faz seus solos. Uma coisa que ele me disse recentemente que eu gosto muito e pela qual tenho tentado viver ultimamente é "muita coisa faz a música ser o que é. As notas provavelmente são o que tem menos importância. É todo o resto que se junta à essas notas que as torna notas musicais". Outra coisa que ele disse recentemente foi "junto de uma nota errada, há sempre uma nota certa". Se você olhar sob essa perspectiva, estará sempre meio caminho andado para a nota certa. Então tenho pensando muito nisso, tenho tentado aplicar isso e expandir a maneira como penso em solos e em minhas linhas de baixo. Talvez tocar algumas das notas erradas me ajude a encontrar as notas certas.

UG: Você é um daqueles que se atém a um tom específico e busca até encontrar o equipamento perfeito? Ou você diria que tende a focar mais sua atenção em tocar?
SL:
É uma combinação. Recentemente comecei a colocar todos os knobs do baixo no zero e deixo que o engenheiro de som chegue nos tons do baixo. No estúdio dessa última vez, fizemos alguns testes com os knobs, e meu produtor Rob Cavallo decidiu que era melhor deixá-los em zero. Então tenho feito isso nos shows também. Eu adorava o baixo reggae. Usava muito e gosto do que aquele som bem grave te permite fazer. Recentemente o tom voltou atrás um pouco. Eu percebi que gosto muito desse outro som. Estou tentando chegar em um som simplesmente puro e real. Tenho usado o IK Multimedia Stomp IO, que é muito bom. Eu adoro. Usamos ele ao vivo. Não usei no estúdio, mas uso ao vivo. Às vezes, a música pede um baixo funk com wah. Tenho um antigo amplificador Ampeg que uso com um pedal wah Jimi Hendrix. Tem um som tão funk e eu adoro. Depois volto aos amplificadores que uso normalmente para as notas diretas. Gosto de ser moderno, mas ao mesmo tempo, gosto que meu baixo tenha um som bem puro. Se você tem um baixo ótimo, você deveria conseguir fazer esse baixo soar insano usando somente as suas mãos e não manipulando tanto o som.



UG: Quais os baixos que você usa atualmente?
SL:
Tenho atualmente 2 baixos pelos quais estou completamente apaixonado. Um é um baixo John Hills, que é meu baixo de 4 cordas. O outro é meu 5 cordas, que é um Ken Smith.

UG: O que te atraiu exatamente nesses 2 baixos?
SL:
O Ken Smith de 5 cordas tem um som um pouco mais musical. Tem ótimos graves e um tom muito bom. Eu gosto da sensação que ele passa. Gosto de como é tê-lo nas mãos e gosto muito de tocá-lo. O baixo John Hill é um baixo único. Funciona melhor para rock. Ele funciona perfeito para as músicas que são um pouco mais tensas e modernas. Também tem um tom ótimo. Produtores sempre adoraram o tom dele. Tenho recebido feedback ótimo desses dois baixos, e me sinto muito bem tocando-os. Eu costumava trocar muito de baixo. Agora quero conhecer muito bem cada um desses baixos.

UG: Suas músicas tem tantas camadas diferentes, e parece que o processo de criação destas músicas é bem complexo. Ao mesmo tempo, tudo flui tão perfeitamente que parece que pode simplesmente ter acontecido em uma jam session. Alguma das músicas novas foi composta dessa maneira?
SL:
A maioria das músicas tiveram sua origem nas jam sessions que fizemos em Charlottesville. Nosso produtor entrou e disse "quero que vocês façam ótimas jam sessions no palco. Acredito no que vocês fazem. Quero capturar esses momentos, mas não quero que vocês toquem por meia hora ou 45 minutos seguidos. Posso pedir pra vocês pararem depois de 10 minutos. Quando eu sentir que surgiu algo naquela jam, vou parar vocês e aí seguiremos em frente". Então começamos. Carter começava com um groove de bateria, e talvez Dave começava a tocar algo na guitarra. LeRoi podia começar algo no sax, e eu começava a tocar junto e Carter também entrava. Foi uma maneira bem espontânea e orgânica de fazer música uns com os outros. Tinhamos umas 20, 25 dessas pequenas pedras a serem lapidadas. Tinhamos uma lista A e uma lista B. Fomos para Seattle e começamos a trabalhar na lista A. Escutávamos as jams que tinhamos gravado, e aí sentávamos todos em uma sala juntos, com violões, guitarras, baixos e nossos instrumentos, pegávamos a parte da jam que tinha aspecto de música e começavamos a experimentar onde podíamos levar aquela música. Um ótimo exemplo é Why I Am. Aquela era uma jam muito legal. Nos divertimos tanto quando começamos a tocar em cima daquela jam, sentimos um clima tão bom, e tinhamos que transformar aquilo em uma música.

UG: A banda é conhecida por suas performances ao vivo, e percebi que vocês tem uma agenda pesada de turnês pela frente. Você ainda fica tão empolgado para cair na estrada como ficava quando vocês começaram?
SL:
Fico. Estou me divertindo muito no meu tempo em cima do palco nesse momento. Estou adorando tocar as músicas novas. Elas abrem muito o setlist. Eu viajo para a Europa amanhã, e estou muito ansioso pra chegar lá e tocar nos diferentes festivais e diferentes países. Isso me deixa muito empolgado, e a turnê tem sido ótima até agora. Sinto uma falta imensa do LeRoi. A maneira como a banda está nesse momento, estamos nos divertindo muito. Só consigo imaginar o quanto mais estaríamos nos divertindo se ele estivesse no palco conosco. Eu simplesmente subo no palco e cada show é pelo LeRoi. Simplesmente tento colocar todo meu coração nas músicas. Tem sido ótimo até agora. Cada show parece uma aventura nova e empolgante.

Entrevista cedida à Amy Kelly, para o site Ultimate-Guitar.com, em julho de 2009



Créditos: Tradução: Nathalie Colas

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