Não pudemos evitar de falar sobre as lembranças de LeRoi Moore, cujo espírito está muito presente em todo o disco novo. Então perguntei a Dave se, de acordo com ele, LeRoi teria gostado deste disco...
"Antes de morrer", Matthews me confessou, "LeRoi (que esteve envolvido em alguns estágios da produção e escutou a maioria das músicas) me disse: "Dave, esse vai ser o nosso melhor disco...". Ele estava certo. Ele também sabia que a banda estava vivendo um momento artísitico mágico: fazia 10 anos que não estávamos exatamente na mesma sintonia... quando LeRoi morreu, sua previsão tornou-se, para mim, uma obrigação moral. Este realmente tinha que ser nosso melhor album".
Mesmo um ano depois da morte de LeRoi Moore, Dave parecia comovido ao falar do amigo que perdeu. Até quando tentou me explicar quais as músicas que ele associa com Moore: "Há muitas músicas que ele adorava, mas uma em particular, Why I Am, era sua favorita", Dave explicou.
Dave Matthews Band - Why I Am (29/08/2009)
"Nós gostamos muito dela desde o começo, mesmo que eu ainda não tivesse escrito a letra ainda. Depois, quando comecei a escrever, tinha ele em mente e a sua maneira de deixar o passado para trás, que havia se tornado o estilo de vida de LeRoi. Tem outras músicas que me lembram ele. Baby Blue, por exemplo, foi escrita para ele, depois da sua morte. É uma música de adeus, ou melhor, de despedida. Mas é tão emocional para mim que nunca consegui tocá-la ao vivo... Só de tocar os acordes da música no meu violão já me dá um nó na garganta, também porque LeRoi adorava essa progressão de acordes... "É fenomenal!", ele dizia... toda vez que escuto essa música lembro dele. Mas, se tiver que escolher uma só música que, mais que as outras, eu associo ao LeRoi, teria que dizer Lying In The Hands Of God, uma música que foi quase toda composta por ele antes de morrer, onde há um dueto entre nós dois".
Why I Am é uma das músicas mais representativas do novo disco. Ela tem uma origem curiosa, Dave me contou. "Eu lembro muito bem dessa sessão de gravação...", ele disse, "foi um dos primeiros encontros que fizemos: não estava saindo nada de bom. Era um momento de verdadeira frustração artística, estávamos fazendo barulho, não música. Então, de repente, como se uma janela tivesse sido aberta e uma rajada de vento tivesse entrado, nos vimos tocando o riff da música... um momento inesquecível... LeRoi inventou aquele som agressivo, com a sessão de metais que parece gritar... e, o que foi ainda mais incrível, eu comecei a cantar o refrão... Why I Am... Why I Am..."
Dave Matthews Band - Lying In The Hands Of God (13/06/2009)
"Antes de começarmos a produção do disco, nos encontramos na Virginia e começamos a escutar várias coisas... horas de música que cada um de nós compôs separado ou, ás vezes, juntos. Então, com o consentimento de Rob Cavallo, escolhemos um método: o de improvisar, tentar encontrar coletivamente "invenções espontâneas". A primeira faixa do disco, Grux, é bem representativa: a versão que está no CD é a única gravação que fizemos dela, a única vez que aquela música foi tocada".
Assim que ele tocou no nome de Rob Cavallo, instintivamente mudei a conversa e comecei a falar da produção, do som, daquela maravilhosa mescla acústica que é a DMB, "a banda que não precisa de um produtor", como seu primeiro produtor, Steve Lillywhite, costumava dizer.
Para mim parece que essa contínua procura por novos produtores esconde a extrema necessidade de encontrar novas formulas sonoras.
"Você tem uma certa razão", Matthews admitiu, "a banda era prisioneira do seu próprio som original, aqueles dos 3 primeiros discos produzidos por Steve Lillywhite, que nos deu uma direção precisa, extraindo o melhor da atitude natural da banda. O problema foi que haviam dinâmicas complexas se desenvolvendo entre nós. E isso estava tornando a vida difícil para Lillywhite, que não conseguia mais administrar a situação. E também porque Steve é um cara que gosta de trabalhar duro e que conta com os artistas com quem trabalha. Mas durante aqueles anos nós não nos comunicamos como devíamos. Assim, naquele contexto, a maneira como ele produz não estava mais funcionando.
Então, tentamos resolver o problema partindo de uma certeza: nos mantermos unidos e respeitarmos uns aos outros. Foi quando começamos a trabalhar com Glen Ballard, e depois com Mark Batson, buscando novas soluções. Diferente de Lillywhite, esses dois produtores tiveram um envolvimento mais ativo, quase intrusivo... às vezes, de brincadeira (mas nem tanto), eu disse que aqueles discos deviam ter sido lançados como "Dave Matthews Band com participação de Glen Ballard ou Mark Batson", teria sido uma definição melhor para o que aconteceu no estúdio..."
Então Rob Cavallo apareceu...
"Quando nos conhecemos, eu disse pra ele que estávamos em um período de boa forma. E estávamos nos dando tão bem quanto nunca antes...", expliquei. Rob veio no momento certo. Ele é muito bom em administrar as situações; sabe quando você deve se forçar e quando não deve... e ele tem a sabedoria para envolver você, respeitando a todos. Foi uma parceria muito enriquecedora, tanto artisticamente quanto pessoalmente. Eu gostei dele assim que o conheci: lembro que estávamos numa mesa e eu não sabia muito sobre ele. "Você sabe como fazer um disco?", perguntei.
Dave Matthews - Baby Blue (19/09/2009)
"Não, não sei", ele respondeu, "vamos para o estúdio para descobrir", e foi o que fizemos".
O sotaque nativo de sul africano desapareceu quase completamente. Mas não seu jeito original de tocar o violão e cantar, com o instrumento tocando notas e ritmos de uma maneira enquanto a voz entra em diferentes melodias e ritmos, como se as duas funções fossem controladas por diferentes (e independentes) partes do cérebro.
"Para ser honesto, essa característica acabou diminuindo por causa da banda", ele me explicou, "no passado, eu costumava compôr e tocar muito dessa maneira, como nas músicas que ajudaram a definir o meu estilo, como Satellite e Warehouse. Aprendi a fazer isso aplicando o mesmo sistema que usava quando comecei a tocar. Naquela época, eu costumava praticar por horas para aprender algo novo (acordes, escalas, progressões), repetindo eternamente o mesmo trecho até aprendê-lo de cor. Eu não tinha que pensar nisso. Então, quando estava tocando, tinha que conseguir fazer outras coisas, como manter uma conversa com alguém. Dessa forma eu consegui separar minhas mãos da minha boca".
15 anos depois de seu disco de estréia, Dave Matthews continua com a mesma paixão e a mesma convicção em seu talento artístico.
"Com certeza é diferente do que costumava ser..." ele murmurou, "e ainda assim estou muito feliz com esse disco... é exatamente o que eu queria... estou tão orgulhoso dele que se alguém me pergunta o que eu faço da vida, eu entrego este CD e respondo 'Aqui está, isso é o que eu faço'. Então, mesmo que eu não negue o passado e esteja orgulhoso dos meus trabalhos anteriores, dessa vez me sinto envolvido emocionalmente. E acho que acontece a mesma coisa com todos os outros membros da banda. O disco é o resultado de 15 anos de trabalho coletivo, é a prova de que somos uma banda muito forte".
Nós nos levantamos e saímos, era hora de conhecer Dylan...
Artigo publicado por Ezio Guaitamacchi na revista italiana JAM, na edição de setembro de 2009. e traduzido no Brasil com exclusividade da DMBrasil. Agradecimentos especiais a Corsina Andriano, do site Con-Fusion. Veja fotos do show na galeria de Luca Cepparo, clique aqui.